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Água

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O Brasil tem 12% das reservas de água doce do planeta, o que deveria lhe garantir uma situação privilegiada no cenário mundial. Mas a falta de tratamento adequado para esse bem tem o tornado cada vez mais escasso. Exploração exagerada, despreocupação com os mananciais, má distribuição, poluição, desmatamento e desperdício são alguns dos fatores que comprovam o descaso com este recurso.

O crescimento desordenado das cidades e a ocupação de áreas de preservação são exemplos visíveis de atitudes (ou falta delas) que prejudicam a água do país. Em São Paulo, duas das principais represas que abastecem a cidade são gravemente afetadas pelo acumulo de casas às margens dos mananciais e consequentemente pela falta de saneamento básico. Além do esgoto residencial provenientes de loteamentos clandestinos, as fontes costumam receber detritos industriais, o que torna a água imprópria para o consumo, obrigando as empresas de abastecimento a realizarem um pesado tratamento antes de distribuí-la para a população.

A preocupação com a água alcança níveis mundiais, até porque já é considerada um dos recursos naturais que vem sofrendo escassez provocada pelas mudanças climáticas. Dados divulgados na conferência mundial sobre água realizada em agosto de 2007, em Estocolmo, revelam que, em 2025, a falta de água atingirá 1,8 bilhões de pessoas no mundo e que dois terços da população também serão afetados pela escassez do recurso.

"Antes pensávamos que o mundo acabaria com uma bomba atômica, guerras e conflitos armados. Hoje, o mundo acabará pela ação do homem e reação do planeta. A previsão é que se torne um verdadeiro caos se nenhuma providência for tomada em favor do meio ambiente", enfatiza o presidente da Ecoesfera, Luiz Fernando do Valle.

Para o presidente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas, o hidrogeólogo Everton de Oliveira, o Brasil dispõe de recursos hídricos invejáveis, mas sempre que se fala no assunto pensa-se em águas superficiais. Ele afirma que é necessário começarmos a pensar em alternativas e destaca que a disponibilidade hídrica subterrânea do país é de fazer tanta ou mais inveja que a superficial, especialmente por dispormos do maior aqüífero do planeta, o Guarani.

Oliveira explica que apesar de a vulnerabilidade dos recursos hídricos subterrâneos à contaminação ser algo tão propalado, é infinitamente menor do que a de um rio ou lago, cujos danos são imediatos. “Nos aqüíferos os danos são mais lentos e contornáveis”, esclarece.

O uso de águas subterrâneas é mais vantajoso porque elas são filtradas e purificadas naturalmente, o que determina excelente qualidade, dispensando tratamentos prévios; além disso, não ocupam espaço em superfície e sofrem menor influência das variações climáticas.

O Aqüífero Guarani é o maior manancial de água doce subterrânea transfronteiriço do mundo, com um volume estimado de 46 mil quilômetros cúbicos. Está localizado na região centro-leste da América do Sul e ocupa uma área de 1,2 milhões de quilômetros quadrados, estendendo-se pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. A sua maior parte está presente em território brasileiro (2/3 da área total), abrangendo os Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

No Brasil, as águas do Aqüífero Guarani já são utilizadas com maior intensidade do que nos países vizinhos para abastecimento público, turismo termal e irrigação, entre outras aplicações. Especialistas temem que a exploração das águas do Guarani pode causar deterioração do aqüífero, em função de aumento dos volumes sugados e do crescimento das fontes poluição.

Oliveira diz que as condições do Guarani são muito variáveis em toda sua extensão, mas que, em geral, o aqüífero ainda não está ameaçado por contaminação. “As pequenas exceções ainda não o comprometem. Mas é preciso cuidar. E para isso existem grupos de trabalho dos quatro países, com apoio da OEA e do Banco Mundial, tendo sido terminada uma primeira etapa neste momento”, destaca.

Cenário desolador

O retrato atual da gestão dos recursos hídricos não é nada bonito. Desperdício, má utilização e falta de planejamento são o que há de mais comum em diversos países. Já é ruim constatar isso enquanto ainda temos água disponível para todos, porém o cenário futuro é muito pior.

Esse é o alerta que o programa de água das Nações Unidas e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) fazem através do quarto relatório de desenvolvimento dos recursos hídricos, que é dividido em três volumes: “Gerência de Recursos Hídricos em Instabilidade e Risco”, “Base de Conhecimentos” e “Encarando Desafios”.

Lançado agora no Fórum Mundial da Água de 2012, o relatório afirma que cerca de um bilhão de pessoas não possuem acesso regular à agua potável. Além disso, as obras de infraestrutura não estão conseguindo acompanhar o ritmo de urbanização do planeta. Atualmente, mais de 80% dos resíduos líquidos não são coletados nem tratados.

Utilizando os dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o relatório considera que a produção de alimentos precisa aumentar em 70% para atender a população mundial em 2050. Esse enorme crescimento será responsável por um crescimento de 19% na utilização de água na agricultura, setor que já é responsável por 70% do consumo global.

Outro fator preocupante é o registro de que triplicou a extração de água de lençóis freáticos nos últimos 50 anos. Muitos desses reservatórios podem desaparecer em breve. O relatório aponta que o sumiço dos lençóis freáticos é resultado também da falta de chuvas regulares, uma consequência das mudanças climáticas.

Os autores acreditam que os efeitos do aquecimento global no sul da Ásia e África afetarão drasticamente a produção de alimentos e o acesso à água. Em 2070, a falta de água também será sentida no centro e sul da Europa, afetando até 44 milhões de pessoas.

O relatório estima que todas essas pressões aumentarão as disparidades econômicas entre os países, podendo incentivar conflitos. Além disso, destaca que, como sempre, os piores efeitos serão sentidos pelos mais pobres.

“A água não está sendo usada de forma sustentável. Informações sobre os recursos hídricos ainda são fragmentadas e não inteiramente confiáveis. O futuro é incerto e os riscos tendem a se aprofundar”, declarou Irina Bokova, diretora geral da UNESCO.

Imagem: Mapa mostra o total anual de recursos hídricos renováveis em cada país. O Brasil aparece como o mais privilegiado / FAO.
 
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Por Sabrina Domingos, CarbonoBrasil
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