Um projeto de pesquisa que integra a
geração de energia e o controle da poluição ambiental rendeu, a
docentes e estudantes da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da
Universidade de São Paulo (USP), a primeira colocação na quinta edição
do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia, na categoria Integração.
O
trabalho, apoiado pela FAPESP por meio de um Auxílio Regular a
Pesquisa, foi conduzido por pesquisadores do Laboratório de Processos
Biológicos da EESC, em parceria com colegas da Universidade da
República (Udelar), no Uruguai.
O estudo propõe a produção de
hidrogênio como fonte de energia renovável, em alternativa aos
combustíveis fósseis, a partir do tratamento de águas residuárias.
Um
dos coordenadores, Marcelo Zaiat, professor do Departamento de
Hidráulica e Saneamento da EESC, explica que a produção biológica de
hidrogênio pode ocorrer por duas vias: fotossíntese e processo
fermentativo.
“A produção fermentativa foi o tema abordado na
pesquisa, que objetivou o desenvolvimento de biorreatores anaeróbios e
o estudo das melhores condições para produção de hidrogênio. A
fermentação é tecnicamente mais simples e, nesse caso, o hidrogênio
pode ser obtido a partir da matéria orgânica presente em águas
residuárias”, disse Zaiat à Agência FAPESP.
Segundo ele, o
processo anaeróbio de conversão de matéria orgânica divide-se
basicamente em duas fases: acidogênica e metanogênica. O hidrogênio é
obtido na primeira fase (acidogênica), a qual é mediada por organismos
que consomem a matéria orgânica das águas residuárias e produzem ácidos
orgânicos, álcoois e hidrogênio.
“O desafio nessa fase está no
desenvolvimento de reatores biológicos mais adequados para essa
conversão, permitindo a maximização da produção de hidrogênio. O uso de
biorreatores acidogênicos conjugados com os metanogênicos possibilita o
tratamento de água residuária, assim como a produção de hidrogênio como
fonte de energia”, apontou.
Nesse contexto de associação entre a
produção de hidrogênio com baixo custo e o controle da poluição
ambiental, Zaiat aponta que os trabalhos de pesquisa na área começaram
a ser desenvolvidos na década de 1990 e que, até hoje, mais de 200
estudos sobre bioprodução de hidrogênio já foram publicados no mundo.
Os
grupos de pesquisa premiados da USP e da Udelar têm desenvolvido
reatores biológicos inovadores, com a busca de parâmetros de engenharia
para maximizar a produção de hidrogênio.
“Muitos problemas de
engenharia ainda devem ser resolvidos antes de essa tecnologia poder
ser aplicada em escala industrial, mas os dois grupos têm trabalhado
com águas residuárias de várias origens, buscando aplicações em vários
setores produtivos ligados à América Latina”, apontou o professor da
USP.
Águas residuárias são águas utilizadas em algum processo,
seja industrial ou residencial, e que são devolvidas ao ambiente. Um
exemplo são os esgotos domésticos que, lançados nos rios sem o devido
tratamento, podem causar impactos negativos ao meio ambiente.
“O
nosso projeto propõe que, acoplado à estação de tratamento do esgoto
doméstico, possa estar um reator acidogênico para produção do
hidrogênio, um combustível limpo que gera, nas células, a água como
único produto”, disse Zaiat. Entre as formas de obtenção de hidrogênio
estão a queima de combustível fóssil, eletrólise e a produção biológica.
“A
produção biológica é a mais atrativa por envolver tecnologias de baixo
custo quando comparada a outras técnicas, além de requerer menos
energia para geração. Esse tipo de produção pode contribuir para a
redução de custos na geração de hidrogênio principalmente se a
matéria-prima, os compostos orgânicos, for obtida de águas residuárias
geradas por indústrias ou esgoto de domicílios”, afirmou.
Segundo
o pesquisador, além de ser um combustível limpo, outra vantagem é que o
hidrogênio é quase três vezes mais energético do que os
hidrocarbonetos. “Essa conta é feita pela termodinâmica. O calor de
combustão do hidrogênio é de 122 quilojoules por grama (kJ/g), cerca de
2,75 vezes maior do que o dos hidrocarbonetos”, calculou.
Prêmio Mercosul
Os
trabalhos vencedores do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia 2008,
promovido pela Reunião de Ciência e Tecnologia do Mercosul (Recyt),
foram anunciados na semana passada, conforme noticiou a Agência FAPESP.
O
prêmio selecionou os melhores estudos sobre o tema “Biocombustível”,
elaborados por estudantes e pesquisadores da Argentina, Brasil,
Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
O
objetivo foi homenagear trabalhos que representam potencial
contribuição para o desenvolvimento científico e tecnológico dos
países-membros do bloco econômico, contribuindo para o processo de
integração regional.
A cerimônia de premiação ocorrerá no dia 20
de outubro, em Brasília, quando serão entregues troféu e US$ 10 mil aos
autores do trabalho vencedor, intitulado Producción de biohidrógeno a
partir de aguas residuales para ser utilizado como fuente alternativa
de energia.
Para Marcelo Zaiat, desenvolver pesquisas em
conjunto com pesquisadores do Uruguai, visando ao avanço do
conhecimento na área dos biocombustíveis, foi determinante para os
resultados alcançados.
“O entrosamento entre os dois grupos
nesse projeto foi excepcional. Os pesquisadores decidiram desde o
início que trabalhariam juntos e, enquanto a USP desenvolvia um tipo de
biorreator no qual somos especialistas – o biorreator de leito fixo com
microrganismos aderidos em material suporte – o grupo da Udelar
desenvolveu outro tipo, o biorreator de mistura com microrganismos em
suspensão, com o qual vem trabalhando há vários anos”, explicou.
“Hoje
podemos comparar os desempenhos e direcionar as pesquisas para caminhos
mais seguros”, afirmou. O grupo do Uruguai, segundo ele, trabalha com
processos anaeróbios desde a década de 1980. “Nosso grupo também
desenvolve pesquisas na área desde a década de 1970 e a troca de
experiências entre os dois grupos tem resultado em avanços
significativos.”
No Brasil, participaram ainda do projeto
premiado os professores Eugenio Foresti e Maria Bernadete Varesche,
ambos da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, e, no Uruguai, as
professoras Claudia Etchebehere, Liliana Borzacconi e Elena Castelló,
da Udelar, além de vários alunos de mestrado e doutorado das duas
instituições.
Por Thiago Romero, Agência FAPESP