O debate sobre a utilização dos créditos florestais no promissor mercado de carbono da Califórnia, que começa a operar em 2013 e já nasce como o segundo maior do mundo atrás apenas do europeu, interessa muito o Brasil. É bem provável que as florestas brasileiras estarão entre as que poderão gerar créditos para atender a demanda californiana e isto promete ser uma nova fonte de renda para proprietários que mantiverem as árvores em pé ou que realizarem ações de reflorestamento. Porém, antes mesmo de entrar em funcionamento, o esquema já cria polêmica.
Em uma reportagem divulgada na última sexta-feira (18), a rede de televisão NBC entrevistou diversos analistas sobre o mercado de carbono californiano, incluindo Bruce Castle, ativista da Ebbetts Pass Forest Watch, entidade de luta ambiental da região de Sierra Nevada.
Castle denunciou que as regras atuais estão muito ‘frouxas’ e permitirão, por exemplo, que empresas lucrem milhões sem necessariamente melhorar suas políticas de gestão florestal.
“A versão mais recente das regras, escrita em cooperação com a indústria madeireira, foi estabelecida para acomodar o interesse das empresas. Permitir que programas florestais criados anos atrás para o corte sejam incluídos no mercado significa dar mais mérito para quem conduziu seu negócio da maneira usual do que para quem promoveu a preservação”, explica o ativista.
O que Castle está questionando é a inclusão no mercado de áreas de florestas que foram plantadas com o único objetivo de serem cortadas, ou seja, sem o planejamento de restaurar o ecossistema. Assim, empresas que nunca pensaram em ações ambientais devem lucrar duas vezes, a primeira quando cortaram parte dessas áreas e agora com os créditos.
“Premiar o 'business as usual' é um grande erro e uma tremenda oportunidade perdida de melhorar a gestão florestal”, completou Castle.
Outro artigo, desta vez publicado pelo jornal mexicano La Jornada, questiona os impactos que políticas de créditos florestais podem ter na vida dos povos que vivem e dependem das florestas.
“La mercantilización de los bosques, motivo para retirar a comunidades en Chiapas”, escrito por Hermann Bellinghausen, questiona o processo de 'commoditização' das florestas e como as comunidades da região de Chiapas já sofrem com a ameaça de serem retiradas de suas terras.
Baseado em um relatório de 122 páginas, o artigo afirma que quando o ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, firmou acordos com estados latino-americanos, como Chiapas e o Acre, para projetos de créditos florestais, teve início um processo de compra e venda de terras.
Além da perda de propriedade, os povos nativos correm o risco de perder também seu modo de vida. “É bem conhecida a importância do milho para os índios de Chiapas, cultura que plantam há séculos [...] Porém, uma das propostas do governo local é que em nome da conservação da biodiversidade as comunidades parem de plantar o milho”.
Segundo o relatório, o governo já está desalojando algumas vilas que eram localizadas no meio das floretas de Chiapas.